quinta-feira, 6 de maio de 2010

Direto do RRAURL : Cuiabá e Passo Fundo: pistas fora do eixo!

Tomei a liberdade de reproduzir aqui uma matéria muito legal do RRAURL sobre cidades do interior do Brasil se destacando na música eletrônica, e entre elas, é claro, Cuiabá é uma das principais.

Um roteiro de clubs no interior do Brasil

Cuiabá e Passo Fundo estão separadas por aproximadamente dois mil quilômetros. Elas podem ser classificadas como cidades brasileiras de porte médio, apesar de a primeira ter praticamente o dobro da população da segunda. É difícil achar muitas semelhanças entre a capital mato-grossense e a cidade gaúcha, não fosse o fato de ambas serem emblemáticas de um movimento ligado à música que vem tomando conta do interior do país nos últimos anos. Não, ele não atende pelo nome de sertanejo universitário com suas infindáveis duplas como podem imaginar alguns, mas é composto por clubes com pistas de dança de primeira linha, DJs fazendo sets memoráveis e um público cada vez maior e mais empolgado.

2010 marca quase vinte anos da chegada "oficial" da música eletrônica ao Brasil. Foi no início da década de 1990 que São Paulo recebeu os primeiros clubes especialmente dedicados à figura do DJ, celebrando os primeiros elementos da cultura "clubber" da época em solo brasileiro, ainda que não de forma coordenada. Entre o meio e o final dos anos 90 outras capitais do país como Rio, Porto Alegre e Curitiba viam a sua própria agitação em torno de DJs e clubes, mas foi só na metade da primeira década dos anos 2000 que a cultura em torno da música eletrônica se tornou algo já quase popular, a ponto de públicos superiores a 50 mil pessoas lotarem as edições de 2005 e 2006 do festival Skol Beats.

Garage

Desde a última edição do festival, em 2008, o Brasil assistiu a um crescente exagero em quase tudo que remete à imagem do DJ, a ponto dele mesmo passar por uma banalização que rendeu discussões acaloradas.

Polêmicas deixadas de lado, a música eletrônica cresce no Brasil com fôlego, longe dos grandes centros e impulsionada pelo trabalho (na maioria das vezes) sério de dezenas de clubes espalhados por cidades que há bem pouco tempo atrás tinham pouquíssimo contato com esta cultura, como Anápolis (50 quilômetros ao sul de Goiânia) ou Chapecó (extremo oeste catarinense e distante mais de 500 quilômetros de Florianópolis).

Ambas são exemplos de cidades médias que com cada vez mais freqüência fazem parte das agendas dos DJs brasileiros e convidados gringos. Na mesma situação delas estão dezenas de outras que a cada noite vêem clubes como o 1051 (de Criciúma, Santa Catarina), Bielle e Nite Club (em Cascavel e Maringá, respectivamente), Fiction (Goiânia) e Nox Club (Recife/PE) lotados para ouvir sets. Em comum, estes lugares tem investido em bons line-ups, estrutura de som, iluminação, pista e esmero no tratamento do público.

O fenômeno é confirmado por Paulo Silveira, sócio da 3Plus, maior agenciadora brasileira de DJs: "Existe sim um notável crescimento nos bookings em clubes em cidades fora dos circuitos óbvios; além disso cada vez nos impressionamos com a qualidade destes clubes". Tânia Saraiva, da agência Tune, reforça o coro e destaca o aquecimento que isto vem gerando no mercado nacional: "Quem sai ganhando são as agências, porque elas querem competir entre si para ver quem leva a melhor atração, a mais legal e mais forte".

As já citadas Cuiabá e Passo Fundo, no entanto, ilustram melhor do que quaisquer outras localidades esta nova cara da eletrônica nacional, e a própria distância considerável entre elas talvez seja o maior indício do quão sincronizado e forte é este movimento.

Garage

Os menos de duzentos mil habitantes de Passo Fundo podem escolher entre nada mais nada menos do que cinco clubes antes de colocar o pé fora de casa. O mais procurado atende pelo nome de Beehive; inaugurado em 2006, é considerado por muitos o melhor clube gaúcho. Em 2009 DJs como James Zabiela e Satoshi Tomiie se apresentaram no local. O clube se tornou uma espécie de febre no estado, a ponto de atrair gente da capital Porto Alegre. No final do ano passado a cidade ganhou o InHouse, clube que também mostra cacife para levar atrações internacionais ao público local. Um dos sócios da Beehive (e também DJ residente da casa), Juan Rodrigues foi pioneiro e enumera algumas das dificuldades do seu trabalho: "O baixo poder aquisitivo, menor público paradigmas a serem quebrados. Trabalhar música eletrônica no interior e distante dos grandes centros significa trabalhar o público."

A filosofia de "trabalhar o público" parece ser a mesma que orienta o Garage, principal clube de Cuiabá. Joel Dibo, um dos sócios do Garage e do Hot Hot em São Paulo, também foi um dos responsáveis pelo Garage de Campo Grande (que fechou as portas em 2009). Ele destaca a importância do trabalho junto ao público local: "O Garage surgiu da necessidade de uma parte do público local que consome música eletrônica já há algum tempo, mas estamos formando um novo público, que não era tão informado. Formamos um público (em Campo Grande) e estamos formando outro, que sabe o valor do nosso investimento, reconhece nosso trabalho e empenho" .

O Garage cuiabano não investe forte só nos line-ups com estrangeiros de primeira linha (Hawtin, Trentemoller e Seth Troxler já tocaram no clube) nos seus decks, mas também é provavelmente um dos clubes com melhor estrutura de pista, som e luz do país hoje, não deixando nada a dever a nenhum superclube brasileiro consagrado. Pelo contrário: já se tornou espécie de referência aos novos clubes que estão chegando. Não dá pra deixar de se impressionar com sua iluminação que remete à originalidade do D-Edge paulistano e do (finado) Lounge 69 do Rio de Janeiro. Mais impressionante que a estrutura do Garage, no entanto, é a animação do seu público, "quente como a cidade" diz Joel.

Garage

Existe uma analogia interessante com relação a movimentos e ondas que diz que quando se joga uma pedra no meio de um lago, as ondas que se formam no centro vão se abrindo e quando elas chega às margens, o centro do lago já mudou. Hoje acontece algo parecido com os centros irradiadores da cultura noturna brasileira, quando vemos que nas grandes cidades onde antes haviam poucos clubes, hoje há uma variedade que privilegia a segmentação, acontecendo em mais espaços que há 10 ou 15 anos atrás. Resta saber como isso irá repercutir quando esta "onda" chegar às capitais menores e cidades de porte médio.

Se o movimento dos clubes espalhados pelo interior do país será duradouro ou não, ou se será apenas mais um dos vários modismos dentre os quais o cenário musical brasileiro passeia, só o tempo deve responder Mas uma coisa é certa: há muito espaço para crescimento ainda, e boas sementes estão sendo plantadas país afora.

fotos: Fran Xiska, Rai Reis, Thiago Cesar

Por João Anzolin - RRAURL

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